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PRÓXIMOS CONCERTOS
25
nov 2018
domingo 19h00 Recitais Osesp
Recitais Osesp: Roger Muraro


Roger Muraro piano


Programação
Sujeita a
Alterações
Robert SCHUMANN
Cenas da Floresta, Op.82
Olivier MESSIAEN
Fauvettes de l'Hérault-Concert des Garrigues [reconstituída por Roger Muraro - estreia latino-americana]
Richard WAGNER
Do Álbum Wagner-Liszt [transcrição de Liszt]
Claude DEBUSSY
Estudos: Livro 1
INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 122,00
  DOMINGO 25/NOV/2018 19h00
  Compra Online
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

ROBERT SCHUMANN [1810-56]
Cenas da Floresta, Op.82 [1848-9]
- ENTRADA
- CAÇADORES À ESPREITA
- FLORES SOLITÁRIAS
- LUGAR ASSOMBRADO
- PAISAGEM AMIGÁVEL
- ALBERGUE
- PÁSSARO-PROFETA
- CANÇÃO DE CAÇA
- DESPEDIDA
19 MIN

 

OLIVIER MESSIAEN [1908-92]
Fauvettes de l’Hérault-Concert Des Garrigues [~1960-rec 2017] (Reconstituída por Roger Muraro)
17 MIN

 

/INTERVALO

 

RICHARD WAGNER [1813-83]
Do Álbum Wagner-Liszt (Transcrição de Liszt)
- O NAVIO FANTASMA: CANÇÃO DA FIANDEIRA
- TRISTÃO E ISOLDA: MORTE DO AMOR DE ISOLDA
13 MIN

 

CLAUDE DEBUSSY [1862-1918]
Estudos: Livro 1 [1915]
- POUR LES CINQ DOIGTS, D’APRES MONSIEUR CZERNY
- POUR LES TIERCES
- POUR LES QUARTES
- POUR LES SIXTES
- POUR LES OCTAVES
- POUR LES HUIT DOIGTS
22 MIN


Em entrevista a Arthur Nestrovski, o pianista Roger Muraro comenta o repertório desta semana.

 

1 - Vamos começar falando da estreia latino-americana de uma obra de Messiaen. Você pode nos contar sobre as circunstâncias da descoberta desta peça e sobre ela em si?

 

A Fundação Olivier Messiaen, cujo papel é proteger e valorizar o patrimônio intelectual do compositor desde sua morte, em 1992, pediu-me para examinar todos os seus escritos depositados na Bibliothèque Nationale de France, em Paris, entre 1995 e 2015. Nesse trabalho de pesquisa fui muito ajudado por Marie-Gabrielle Soret, do Departamento de Música.

 

Entre os manuscritos, pudemos ler o esboço de uma nova obra. Messiaen havia planejado uma peça “ornitológica” de grandes dimensões para piano solo, madeiras, percussão, teclado e grande orquestra, uma espécie de Concerto de Brandemburgo moderno. Para essa obra, o compositor havia passado algumas temporadas na região de Hérault, no sul da França. As primeiras notações do canto dos pássaros para esse projeto datam de 1958.

 

Em 1962, a obra concertante estava inacabada quando Messiaen recebeu uma encomenda do Ministério de Assuntos Culturais da França para o centenário do nascimento de Claude Debussy. O concerto sobre os “pássaros de Hérault” parecia perfeitamente indicado para ser a dupla homenagem que Messiaen queria fazer a Debussy e Yvonne Loriod, a grande pianista e intérprete favorita do compositor, com quem havia se casado em 1961.

 

Em 1962, o jovem casal Messiaen-Loriod fez uma primeira turnê de concertos no Japão e Messiaen voltou fascinado da viagem.

 

Inspirado nas paisagens, lugares sagrados e cantos de pássaros do “país do sol nascente”, Messiaen quis render homenagem a Debussy compondo muito rapidamente os Sete Haicais para piano e pequena orquestra. Para isso, o compositor utilizou temas, motivos já escritos para o concerto sobre os “pássaros de Hérault”.

 

Os Sete Haicais celebraram Debussy misturando sonoridades do Japão e alguns cantos de pássaros do sul da França!

 

O concerto sobre os “pássaros de Hérault” ficou inacabado. Se a partitura orquestral não chegou a ser escrita, a brilhante parte do piano solo estava bastante completa e Fauvettes de l’Hérault-Concert des Garrigues permite apresentar esses esboços na forma de uma obra para piano solo.

 

Estou muito feliz em apresentar essa novaobra pela primeira vez na América Latina.

 

2 - Você chegou a ter contato direto com Olivier Messiaen?

 

Eu tive o imenso privilégio de trabalhar com Messiaen de 1986 até o fim de sua vida, em 1992.

 

Fiquei muito impressionado com a gentileza, com a qualidade da escuta dele diante do jovem intérprete que eu era naquela época. Seus conselhos eram muito discretos, ele era muito calmo, reservado. Fiquei muito honrado em ver que ele havia gostado bastante do meu trabalho e me lembro de uma observação particularmente tocante sobre a interpretação de uma obra, L’Alouette Lulu, sugerindo-me que tocasse esse canto de pássaro com mais abandono, poesia, “um pouco à maneira de Chopin”, ele disse.

 

Apesar de uma notação muito precisa dos ritmos, fiquei surpreso com a liberdade com a qual Messiaen me convidou para tocar suas obras. Isso não autoriza o pianista a “improvisar” de acordo com seu humor, mas Messiaen gostava de ouvir sua obra viva como um canto de pássaro, como um romântico, às vezes. O próprio Messiaen tomava muitas liberdades com suas próprias obras quando ele as tocava.


3 - Os “pássaros” da floresta de Schumann (Vogel als Prophet) conversam com os pássaros de Messiaen?

 

Vogel als Prophet de Schumann não tem uma relação direta com a obra de Messiaen. Mas beleza e mistério reinam nesse trecho dos Waldszenen (Cenas da Floresta). A natureza é traduzida como um sentimento, uma impressão, uma alma, e tudo isso vai ao encontro do canto dos pássaros de Messiaen.

 

Se o Catalogue d’Oiseaux é resultado de notações muito precisas, não devemos esquecer que o canto dos pássaros na obra deste compositor é ao mesmo tempo uma homenagem à natureza e uma metáfora da linguagem divina. O pássaro se torna um profeta do sagrado, na sua paisagem, no céu.

 

O pássaro de Schumann é um profeta divino ou um filósofo que medita sobre o mundo dos homens? O pássaro de Messiaen é um profeta divino ou um mensageiro que ouvimos? Esse pássaro olha o mundo dos homens?

 

4 - Você tem um gosto especial pelas transcrições que Liszt fez de grandes obras sinfônicas, caso da Sinfonia Fantástica de Berlioz. Neste recital, o quanto a memória das versões orquestrais orientam essas obras de Wagner (Canção da Fiandeira e Morte de Amor de Isolda)?

 

Eu gosto do piano de Franz Liszt e da natureza desse músico tão generoso. Finalmente, gosto do interesse que ele demonstrou em relação a todos os seus contemporâneos.

 

Berlioz recebeu muito de Franz Liszt. Devemos lembrar que a primeira edição da Sinfonia Fantástica foi publicada por Franz Liszt às próprias custas na versão para piano solo que ele havia transcrito.

 

Devemos dizer tudo o que Wagner deve ao sogro?

 

As obras do repertório orquestral de meados do século xix encontraram um grande público graças às transcrições de Franz Liszt.

 

A escrita lisztiana representou uma evolução tão grande no piano que inspirou compositores como Saint-Saëns, Debussy, Ravel, Bartók, Rachmaninov e muitos outros.

 

O piano de Liszt, na linhagem do piano de Beethoven, expandiu o espectro sonoro do instrumento para muito além das proezas do virtuosismo. Deve-se acrescentar que Franz Liszt foi um dos primeiros, ao lado de Berlioz, a desenvolver a ideia de uma “música narrativa”, uma música escrita para traduzir “a alma romântica” das epopeias gloriosas, trágicas ou apaixonadas como a pintura ou a poesia.

 

Sua música conta uma história, e em um estilo muito diferente; a música de Messiaen também conta uma história.

 

5 - Num outro extremo, os Estudos de Debussy são “música pura”, puríssima. Ou será que não?

 

A escrita de Debussy é primeiramente feita de inteligência e sensibilidade. Sua construção se baseia no atemporal, na expressão do ritmo imaterial da natureza. É também uma abertura às cores exóticas com uma incrível riqueza harmônica.

 

O gênio de Debussy é uma reação aos rigores do estilo dessa época. Também se destaca como uma identidade francesa em referência ao grande “século das Luzes”, do qual Jean-Philippe Rameau foi o representante mais brilhante.

 

Sua música enfrentou as óperas veristas da Itália; o todo-poderoso Wagner que, entretanto, Debussy tinha amado muito na juventude. O piano de Debussy também é uma exploração dos recursos sonoros, e apesar das evocações do movimento da água, do ruído do vento nas folhas, dos perfumes do Oriente, existe uma tal sensibilidade e uma tal profundidade nos Estudos escritos durante a guerra que para mim eles traduzem a universalidade do pensamento dos homens diante do horror.

 

6- Quantos programas diferentes de recital você apresenta numa mesma temporada? Quanto tempo de preparo eles exigem?

 

Eu não sou o pianista das turnês com dois ou três programas na mesma temporada. Algumas vezes fui levado a tocar repetidamente um programa idêntico na mesma semana. Entendo que isso possa ser interessante, mas acho ainda mais interessante manter o sentimento de renovação, correr o risco de mudar de programa. Isso implica mais trabalho e mais tensão, inevitavelmente.

 

Em 2018, tenho muitos compositores diferentes no repertório: Schumann, Chopin, Mozart, Debussy, Ravel, Frank Martin, Liszt, Messiaen, Albéniz, Betsy Jolas, Henri Dutilleux, Vasco Mendonça. A música contemporânea deve ser essencial no ofício do intérprete.

 

[2018]

 

Tradução de Alexandre Agabati