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PRÓXIMOS CONCERTOS
16
nov 2018
sexta-feira 20h30 Paineira
Temporada Osesp: Peleggi rege Puccini


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Valentina Peleggi regente
Olga Kopylova piano
Fernando Dissenha trompete
Valeria Sepe soprano
Peter Auty tenor


Programação
Sujeita a
Alterações
Gioacchino ROSSINI
La Scala di Seta: Abertura
Dmitri SHOSTAKOVICH
Concerto nº 1 Para Piano em Dó Menor, Op.35
Sergei RACHMANINOV
Trois Études-Tableaux [orquestração de Ottorino Respighi]
Giacomo PUCCINI
Manon Lescaut: Ato IV
INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 222,00
  SEXTA-FEIRA 16/NOV/2018 20h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Falando de Música
Quem tem ingresso para o concerto da série sinfônica da temporada da Osesp pode chegar antes para ouvir uma aula em que são abordados, de forma descontraída e ilustrativa, aspectos estéticos das obras, biografia dos compositores e outras peculiaridades do programa que será apresentado em seguida.

Horário da palestra: uma hora antes do concerto.

Local: Salão Nobre ou conforme indicação.

Lotação: 250 lugares.

Notas de Programa

Leia um excerto do ensaio "Prefácio a Vida de Rossini", de Lorenzo Mammì, aqui.


Leia o ensaio "Signor Tambourossini", de Larry Wolff, aqui.


GIOACCHINO ROSSINI [1792-1868] /150 ANOS DE MORTE
La Scala di Seta: Abertura [<1812]
7 MIN

 

DMITRI SHOSTAKOVICH [1906-75]
Concerto nº 1 Para Piano em Dó Menor, Op.35 [1933]
- ALLEGRO MODERATO. ALLEGRO VIVACE
- LENTO
- MODERATO (ATTACCA)
- ALLEGRO CON BRIO
21 MIN

 

/INTERVALO

 

SERGEI RACHMANINOV [1873-1943]
Trois Études-Tableaux (Orquestração de Ottorino Respighi)
- A CHAPEUZINHO VERMELHO E O LOBO
- A FEIRA
- O MAR E AS GAIVOTAS
8 MIN

 

GIACOMO PUCCINI [1858-1924]
Manon Lescaut: Ato IV [<1893]
21 MIN

 

 

ROSSINI
La Scala di Seta: Abertura

 

Sob vários prismas, Gioacchino Rossini foi uma figura rara no mundo da música. No entanto, talvez os dois aspectos mais peculiares de sua carreira tenham sido o sucesso retumbante que obteve ainda muito jovem e a inexplicável aposentadoria precoce. Rossini escrevia muito, e bem, lançando ópera após ópera para um público que aguardava ansioso a próxima novidade. Viria a escrever mais de três dezenas de óperas até que, aos 37 anos, aposentou-se no auge da fama, sem oferecer grandes explicações para o gesto, que permanece como uma das perguntas sem resposta da história da música. Hoje, não são muitas as óperas de Rossini regularmente encenadas (com a óbvia exceção d’O Barbeiro de Sevilha); suas aberturas, no entanto, sobrevivem como peças autônomas. É o caso de La Scala di Seta [A Escada de Seda], uma favorita do repertório orquestral, em que graça e agilidade se combinam à perfeição.

 

Nessa farsa em um ato, o amor da jovem Giulia é disputado por dois homens. Um deles, com quem se casou em segredo, sobe toda noite ao seu quarto se utilizando de uma escada de seda que a esposa disponibiliza. O outro lhe faz a corte a mando do tutor de Giulia, porém na verdade está apaixonado pela prima da moça.

 

O libreto do poeta Giuseppe Foppa foi baseado em uma comédia francesa, e a ópera foi escrita por Rossini quando tinha apenas 20 anos – embora já houvesse composto cinco óperas cômicas e fosse um nome aclamado. A introdução enfatiza o diálogo lírico entre oboé e flauta, pontuado por trompas dolentes e apoiado nas clarinetas e fagotes. O tema alegre e enérgico proposto pelos violinos é interrompido e, retomado pelos oboés, suscita uma intervenção vigorosa da orquestra. Brincando com o sentido duplo de “scala” (ao mesmo tempo “escada” e “escala” em italiano) e de “seta” (representando ao mesmo tempo o material usado na confecção da escada e a suavidade com que as frases se entrelaçam) Rossini tece sedosas escalas que sobem e descem em movimento vertiginoso. A música privilegia equilíbrio, contraste, impulso rítmico e leveza, com solos borbulhantes para todos os naipes orquestrais.

 

SHOSTAKOVICH
Concerto nº 1 Para Piano em Dó Menor, Op.35

 

Se, como dizia Guimarães Rosa, “viver é perigoso”, viver em certos lugares e certas épocas, ainda mais sendo artista, é mais perigoso ainda. Como acontecia com todos os compositores russos do século xx, a carreira e reputação de Dmitri Shostakovich estavam sempre à mercê dos ventos políticos, que podiam soprar contra ou a favor, dependendo de razões tão imponderáveis quanto o humor dos críticos de plantão, a generosidade de protetores, a boa vontade de burocratas locais ou a inveja de algum colega. Assim, sua vida teve inúmeros altos e baixos. O Concerto nº 1 foi gestado num período em que o compositor, aos 27 anos, gozava de bom crédito entre os intelectuais e de apoio da classe política, antes de sofrer a primeira onda de censura oficial que viria a lhe tolher um pouco da espontaneidade. A escrita reflete este bom momento: é extrovertida, espirituosa e jovial, sem os laivos de angústia que viriam a povoar muitas das peças posteriores do compositor.

 

Apesar de ostentar o título de concerto para piano, na maior parte do tempo a composição tem características de concerto duplo: o trompete solista comenta ou complementa o material do solista de teclado, sobrepondo-se às cordas (a orquestração não inclui outros sopros).

 

Especialmente no último movimento, a parte de trompete se equipara em dificuldade e importância à do piano. A música soa evigorante, complexa e virtuosística, especialmente nos movimentos externos, em que solistas e cordas parecem políticos de partidos opostos tentando chegar a um consenso. O lento é uma valsa sentimental e singela, que cresce em pathos até chegar ao término plangente. O curto moderato desemboca num allegro eletrizante e ousado.

 

A obra se alimenta de vários estilos e é eivada de citações musicais, algumas bastante óbvias, outras quase imperceptíveis. Entre os homenageados estão Bach, Beethoven, Haydn, Mahler e cançonetas populares como Oh, du lieber Augustin e Poor Jenny, sem falar no espírito de Rossini. Trechos de obras anteriores do próprio Shostakovich são também espalhados pelo caminho, como uma espécie de assinatura artística.


RACHMANINOV
Trois Études-Tableaux

 

Compostos para piano entre 1911 e 1917, os dezessete “quadros em forma de estudos”, de Sergei Rachmaninov, exigem do intérprete grandes habilidades técnicas e expressivas. São cultuados não apenas pelo virtuosismo da escrita e por constituírem desafio técnico, mas principalmente porque propõem um paradoxo intrigante: considerados peças de programa, tratam de emoções abstratas ao invés de abordarem histórias ou situações específicas. Cada quadro enfatiza um estado de espírito diferente; mas qual evento desencadeou aquela reação é uma suposição que o compositor prefere deixar a cargo da imaginação do intérprete e do ouvinte.

 

Festejados como joias do repertório pianístico, foram orquestrados por volta de 1930 por Ottorino Respighi, graças à sugestão de Serge Koussevitzky, que imaginou que um grupo dessas miniaturas daria uma bela suíte sinfônica para sua orquestra, a Sinfônica de Boston. A ideia foi encampada com entusiasmo por Rachmaninov, grande admirador do talento de Respighi, já sobejamente comprovado nessa época. Normalmente avesso a revelar suas fontes de inspiração, o compositor russo fez a seleção dos estudos a serem orquestrados e confiou ao colega italiano qual havia sido a centelha inicial para cada um dos cinco tableaux escolhidos, aos quais acabou por atribuir títulos descritivos.

 

O programa de hoje traz três desses estudos. Chapeuzinho Vermelho e o Lobo são os personagens que dominam o primeiro, no qual se alternam assustadora violência com ingenuidade nervosa; no segundo, o clima festivo e o caleidoscópico acúmulo de informações visuais de uma quermesse de interior é que são pintados por meio de sons; finalmente, no terceiro, o Diaes Irae, tradicional canto fúnebre, é evocado com força dramática.

 

PUCCINI
Manon Lescaut: Ato IV

 

Primeiro grande sucesso de Giacomo Puccini, Manon Lescaut conta a história de Manon, beldade que, a caminho do convento, se apaixona por Des Grieux, jovem de origem nobre. Ele corresponde ao seu amor, mas infelizmente não tem grandes recursos, a despeito da origem. A paixão inicial não resiste às privações e Manon acaba desistindo do rapaz para se unir a Geronte, homem mais velho que não ama, mas que pode lhe proporcionar uma vida de luxo. Tempos depois Des Grieux reaparece, bem no instante em que, já instalada em palacete faustoso, a futilidade da existência de Manon começa a lhe pesar. A moça decide fugir com o rapaz levando as joias que o amante mais velho lhe dera. Geronte descobre o plano, chama a polícia, e Manon é deportada para os Estados Unidos como prostituta. O jovem apaixonado embarca com ela.

 

A trama é separada em quatro atos que caracterizam os momentos da vida dessa moça encantadora, porém um tanto irresponsável e egoísta: o nascimento da paixão, a fase em que a prioridade é apenas a diversão e o conforto, o embarque no navio que procederá à deportação e, finalmente, a dramática morte prenunciada. É na Louisiana devastada pelas forças da natureza que se passa o quarto e último ato da ópera, com os protagonistas em um deserto inóspito, sem meios de subsistência. Lá, o ambiente árido e desolador testemunha as últimas juras de amor do casal. Manon acaba morrendo nos braços do amado.

 

Uma das novidades dessa obra, além do aperfeiçoamento do estilo realista, é a participação fundamental da orquestra, não como acompanhamento puro e simples, mas elemento principal de expressividade e mesmo de impulsão da história. A escolha do ambiente despojado do deserto leva o foco do público a se concentrar inteiramente na música e não em qualquer elemento cênico. Além disso, as árias se encadeiam sem interrupções, de modo a criar uma ação contínua realista. São características que fazem desse um ato particularmente apropriado para apresentação isolada e sem encenação ou figurinos.

 

LAURA RÓNAI
é doutora em Música, responsável pela cadeira
de flauta transversal na UNIRIO e professora
no programa de Pós-Graduação em Música. É
também diretora da Orquestra Barroca da UNIRIO.